Renata Menegatti

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Maternidade Lado B

a fala e a sobreviência

bebês não sabem controlar suas emoções, ainda não aprenderam a ser razoáveis, nem a ter noções de civilidade, vida em grupo e outras ferramentas de sobrevivência em sociedade. e, sem saber controlar estas emoções, eles choram, esperneiam, ficam muito bravos, por vezes nem são entendidos.

 

felizmente para todos, eles não aprenderam a usar a linguagem para expressar seu inconformismo com este mundo estranho. se soubessem, acho que seríamos muitos menos, quem teria coragem de procriar?
 

 

quem manda aqui?

quem manda aqui?bebês, quando nascem, tem três habilidades para viver: sugar, o reflexo de apertar um dedo que lhe é oferecido e o de manipular. a do dedo é bacana, dê um dedo para um bebezico e ele o agarra com coragem. deve haver uma explicação na evolução da espécie para isto, mas eu não sei.
 

a outra capacidade, a da manipulação, é refinada em tempo real, o que é até compreensível. se um bebê totalmente dependente quiser se manter vivo, tem que chamar a atenção. então vem o choro que, biologicamente, soa mais alto para a mãe daquele bebê (maravilhas da preservação da espécie). e este choro tem variações diversas, muitas vezes rancorosas, pois a mamãe ainda não fala aquela língua, e simplesmente não sabe porque tanto chora aquela criança. o anjinho rapidamente percebe o enorme poder que tem e as relações ficam claras: todos sabem quem manda.
 

seria necessária uma coerência inumana para vencer todas as tentações e manipulações das crianças. tentar com bom humor é kit de sobrevivência, bem como a consciência de que não errar é impossível.
 

mas tudo bem, o tempo corre e as coisa se acalmam. o bebezinho cresce e seu poder de manipular se sofistica. muito.
 

esqueceu quem manda?
 

 

cara a tapa

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sou mamãe moderna, leio livros de puericultura (alguém ainda diz isso?), acredito no poder do diálogo e na finada tracy hogg.
 

acontece que crianças testam os limites e vão até o fim. quando a minha nem andava ainda, começou com a mania do tapa na cara. se ria muito da minha quando vinha com a mãozinha remelenta dar com força.
 

nas primeiras vezes nem soube o que fazer além de suar frio, nas segundas conversei, expliquei, me esforcei (deus sabe o quanto). a danada parece que cada dia gostava mais de me safanar e nenhum diálogo a fazia parar com aquilo. então um dia, depois de muito apanhar, fiz o óbvio: devolvi, um sonoro e bem dado tapa na carinha. ela ficou tão surpresa que demorou alguns segundos pra chorar, um chorinho sentido e comprido, meu coração despedaçou. quase chorando junto, mas firme, disse-lhe do desagrado de apanhar na cara, e parece que dali pra frente tudo fez sentido.


a cena jamais se repetiu e dessa eu aprendi que um tapinha dói, mas ensina que é uma beleza.

 

 

da humildade

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os pais mais ligeiros logo percebem que, quando vem os filhos, a humildade vale mais que ouro (ou fraldas, dá na mesma). antes de engravidar ficava horrorizada vendo pirralhos dar show e fazer malcriação na rua. tinha vontade de bater nas mães, aquelas incompetentes.

conforme a minha foi crescendo e se aprimorando na arte da manipulação, eu já não tinha coragem de julgar criança nenhuma, pois embora tente o tempo todo, nunca dá pra ter certeza do que te espera.

um dia ela, fazendo birra, se jogou no chão. era a malcriação máxima,  vi meu inferno, rodeada de criancinhas se jogando no chão. me contive pra não virar o homer e grudar-lhe no pescoço. contei até 8 milhões em 1 segundo e dei-lhe as costas: 'do chão não passa, se machucar a gente conserta'.

ela tentou este golpe só uma vez, logo percebeu que era mau negócio se quebrar sozinha, garota esperta. e eu até que sobrevivi bem ao karma de xingar o filho alheio.

 

férias e saudade

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filhos, inevitavelmente, abalam a vida social. sair de casa é uma operação, babá é sempre um problema. se for dormir fora tem que ser em um lugar divertido, não vale ir pra gandaia e deixar a criança com a enfermeira, que cuida também de uma velhinha doente. se for para ficar em casa também pode ser complicado, as pessoas confiáveis costumam ser as que cuidam de outras crianças enquanto você tenta sair. fora aquelas cuja vida noturna é mais agitada que a sua (fácil).
 

aí as vezes acontecem férias. casa de primos, molecada correndo, liberdade e paparico. oba, ela vai sem olhar para trás e você nem acredita: 5  intermináveis dias de pura e rara solidão. faz um monte de planos de colocar a vida em dia, fazer  baladinha, namorar e tudo o mais. sobra tempo, dá pra fazer tudo e ainda ficar de bobeira.
 

pois bem, seria um mundo perfeito não fosse uma saudade tão louca que faz pensar em ter mais filhos. e assistir backyardigans escondido.

 

o amor me pegou

maternidade é bom, muito bom, excelente, estupidamente bom. faz mudar tudo, relembrar de coisas que a vida bandida apaga da memória. faz perdoar nossas próprias mães, faz um mundo melhor, faz querer viver como gente decente, faz até querer limpar a casa. e, falando nisso, dá também um trabalho de escravo, até o fim dos seus dias. gosto de remendar esta afirmação dizendo que é o trabalho mais pesado de todos, e o único que remunera com amor.
 

mas a questão não é desmerecer a maternidade, muito pelo contrário, pelos motivos acima e infinitos outros. o problema é que NINGUÉM nunca diz a verdade sobre as dores de ser mãe. sobre as coisas práticas que dão errado. sobre o fedor dos bebês. sobre o medo do desconhecido, sobre a exigência da vida sobre a sua própria, sobre como lidar com o furacão que é um nascimento. a mãe só nasce quando o filho sai da barriga e daí surgem as melhores e as piores pessoas. melhor não ser pega desprevenida, tomar uma rasteira e procurar apoio em pílulas multicores. até porque ainda não inventaram dessas pílulas para nossos kids.

 

Alfabetização e maternidade

A verdade sobre a queda nos índices de natalidade é esta: como se dar à luz toda a prole não fosse serviço suficiente em nome da espécie, as mulheres também são frequentemente sobrecarregadas com a criação desta prole, ou seja - como dizer  de forma educada? -, não exatamente uma atividade valorizada na sociedade. Assim, quando com recursos monetários suficientes, aquelas que podem rapidamente convocarão outras mulheres com menores recursos monetários para criá-los em seu lugar, ou, pelo menos, para lidar com as partes mais maçantes e confusas da criação, que não são poucas. Sim, que pacote de alegrias as crianças podem ser. Por outro lado, admitamos: as capacidades intelectuais e argúcias conversacionais infantis não são sua melhor característica; portanto, o tédio e a atrofia intelectual são as condições normais da vida diária para as classes que cuidam das crianças. Uma vez que as mulheres adentraram a educação superior em números crescentes, uma vez que o mercado de trabalho lhes abriu seus braços (se não seus cofres), as taxas de natalidade decaíram ainda mais: as mulheres com maior instrução são aquelas que têm menos filhos. Mas mesmo a alfabetização básica tem um efeito negativo sobre as taxas de natalidade no mundo em desenvolvimento: quanto maior a taxa de alfabetização, menor a taxa de natalidade - dê um livro a uma menina, diga adeus à superpopulação. Em outras palavras, quando as mulheres adquirem senso crítico e começam a pesar suas opções, elas rapidamente reconhecem o fato de que estão fazendo um acordo desleal: pouca recompensa social por suas contrações.

 

In: Coisa de Mulher - Laura Kipnis

 

 

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